31/8/2026

A cerveja também tem Odisseia

Por Carlota Burnay, Secretária-Geral dos Cervejeiros de Portugal


Há histórias que atravessam milhares de anos e continuam a encontrar novas formas de nos surpreender. A Odisseia é uma delas: quase três mil anos depois, Christopher Nolan voltou a colocar ciclopes, sereias, deuses, monstros e tempestades no centro da conversa. Ora, se falamos de mesa e convívio, permitam-me introduzir a cerveja, especialmente numa semana em que se celebra o seu dia internacional.

Quando as aventuras de Ulisses começaram a ser contadas, a humanidade já conhecia bebidas fermentadas à base de cereais há milhares de anos. Desde então, a cerveja atravessou civilizações, geografias, revoluções industriais e mudanças de costumes. Mudaram os copos. Mudaram as receitas. Mudaram os métodos. Mudámos nós. Mas a cerveja ficou.

Talvez porque, tal como Ulisses, tenha aprendido uma coisa essencial para qualquer viagem longa: adaptar-se às circunstâncias sem esquecer de onde vem - apesar da flor de lótus - nem perder de vista o destino, a vontade e a sua responsabilidade.

E não faltaram ciclopes pelo caminho. A diferença é que a cerveja nunca olhou para o futuro com um olho só. Olhou para a tradição e para a inovação, para as receitas transmitidas entre gerações e para a tecnologia, para quem procura a cerveja de sempre e para quem quer descobrir novos estilos. Para quem escolhe cerveja com álcool, com menor teor alcoólico ou sem álcool.

Hoje, por detrás de uma palavra aparentemente tão simples - cerveja - encontramos uma enorme diversidade de estilos, 160 dizem. E encontramos inovação onde, há algumas décadas, seria mais difícil imaginá-la: na cerveja sem álcool.

As primeiras cervejas sem álcool chegaram ao mercado português na década de 90. E convém dizê-lo com franqueza: retirar o álcool mantendo aroma, corpo, textura e sabor não era, com a tecnologia disponível na altura, propriamente uma tarefa digna dos deuses. As primeiras experiências nem sempre foram épicas. Mas o setor continuou a investir, a inovar e a insistir na moderação e na escolha. E o consumidor respondeu. Em Portugal, as vendas de cerveja sem álcool cresceram 11,5% em 2025 e voltaram a aumentar 12% no primeiro semestre de 2026. Já não estamos perante uma cerveja que existe apenas para substituir outra. Estamos perante mais uma escolha dentro do universo cervejeiro.

E é aqui que entram as sereias. Ulisses sabia que o seu canto era irresistível e, para o poder ouvir sem se perder, mandou-se amarrar ao mastro. Três mil anos depois, felizmente, temos soluções mais simples: temos escolha. Podemos optar pela cultura da moderação perante uma cerveja com álcool e optar por uma sem álcool. Podemos até alternar entre ambas na mesma ocasião, uma tendência que se chama “zebra striping”. Tal como uma odisseia, um almoço pode prolongar-se pela tarde. Um festival pode durar várias horas. Um jantar entre amigos pode anteceder um treino ou um dia de trabalho. Já não precisamos de cordas ou mastros a prender-nos no “hoje não vou, porque não posso beber”.

Mas há outra imagem da mitologia homérica que talvez seja ainda mais interessante para falar da cerveja portuguesa: o Cavalo de Troia. Porque também num copo de cerveja existe muito mais do que aquilo que vemos à primeira vista. Se pudéssemos “abri-lo” como se abriu o famoso cavalo, descobriríamos quem viajou lá dentro. E não seriam soldados. Encontraríamos agricultura e matérias-primas. Trabalhadores. Fábricas e tecnologia. Distribuidores e operadores logísticos. Fornecedores. Restaurantes, cafés, hotéis, bares e esplanadas. Encontraríamos turismo, comércio, serviços, indústrias criativas e milhares de empresas espalhadas pelo país.

Um recente estudo da Nova SBE permitiu olhar com muito maior profundidade para este particular “Cavalo de Troia” da cerveja portuguesa. E aquilo que saiu lá de dentro surpreendeu até quem conhece bem o setor. A atividade cervejeira representa um contributo equivalente a 2,53% do PIB nacional e sustenta mais de 170 mil empregos diretos, indiretos e induzidos. Dentro das próprias cervejeiras, quase nove em cada dez trabalhadores têm contrato sem termo. Em 2024, cada trabalhador gerou, em média, cerca de 131 mil euros de valor acrescentado, quase três vezes a média da economia portuguesa.

Há ainda uma característica muito portuguesa que ajuda a explicar este efeito multiplicador: 70% da cerveja é consumida fora de casa, somos o país numero um da Europa. É nos cafés, restaurantes, esplanadas, hotéis e bares que vive grande parte do consumo de cerveja em Portugal. Por isso, o seu valor económico não termina à porta de uma fábrica. Multiplica-se pela restauração, pelo turismo, pela distribuição, pelo comércio e por uma extensa cadeia de fornecedores.

Mas neste Cavalo de Troia “cervejeiro” também se encontram impostos. Muitos impostos. Em Portugal, a cerveja está sujeita ao IEC/IABA e a uma carga fiscal que continua a penalizar desproporcionadamente o setor face a outras bebidas fermentadas sendo, por exemplo, o vinho isento. Acresce uma diferença também em sede de IVA: a cerveja está sujeita à taxa máxima de 23%, enquanto o vinho beneficia da taxa intermédia (13%).

A comparação europeia torna o desequilíbrio ainda mais evidente. Espanha consome quase sete vezes mais cerveja do que Portugal, mas a receita fiscal por hectolitro consumido ronda os 8,4 euros, face a 19,4 euros em Portugal. Na Alemanha, cujo mercado é quase 12 vezes superior ao português, esse valor situa-se em cerca de 7,6 euros por hectolitro. Ou seja, a receita fiscal portuguesa por hectolitro é mais do dobro da espanhola e cerca de 155% superior à alemã.

Talvez Poseidon não cobrasse IABA, mas sabia certamente o que era navegar contra ventos desfavoráveis. Mas também não queremos uma batalha fiscal. Propomos antes a prudência de Ulisses: estabilidade suficiente para atravessar águas difíceis sem comprometer investimento e competitividade, através de um congelamento plurianual do IEC/IABA. Num setor que compete, investe, cria emprego e mobiliza centenas de milhões de euros na economia nacional, a fiscalidade não é um detalhe da viagem. Um emprego direto no setor, gera 68 empregos na economia nacional.

A cerveja portuguesa conhece a sua Ítaca. Está na mesa, no encontro, na cultura e na capacidade de continuar a criar valor para o país. Numa data que se celebra a cerveja, talvez valha a pena olhar para o copo de outra maneira. Não apenas para celebrar uma bebida milenar, mas para perceber tudo aquilo que ela transporta.

Porque algumas Odisseias contam-se em milhares de páginas. A nossa também se conta num copo. Um brinde a ele e com ele!

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