5/1/2026

Cerveja e Sustentabilidade

As alterações climáticas, o aumento das temperaturas, as secas prolongadas e a escassez de recursos hídricos representam uma séria ameaça à produção de cevada e lúpulo, ingredientes essenciais que definem o sabor e a qualidade da cerveja. A cevada, em particular, é altamente sensível a secas e ondas de calor. Algumas projeções científicas indicam que a produção global de cevada poderá cair significativamente, provocando um aumento dos preços e uma redução da disponibilidade deste cereal. Enquanto isto, o lúpulo, responsável pelo amargor da cerveja, tem sofrido já uma diminuição da produção em regiões tradicionais, como a Alemanha e a República Checa.

Sendo a cerveja composta por cerca de 90% de água, um potencial agravamento da escassez hídrica impactará diretamente o setor cervejeiro, onde ainda hoje se encontram unidades de produção no centro da Europa, como na Bélgica, que chegam a gastar 7 litros de água por cada litro de cerveja produzida. Felizmente, este não é o caso da indústria cervejeira nacional, que adota práticas muito mais eficientes na redução do consumo de água e energia, na transição de fontes de energia fósseis para renováveis, e no fomento da economia circular, reaproveitando os resíduos gerados para alimentação animal ou para a produção de novos ingredientes alimentares.

Em Portugal, destacam-se vários exemplos de utilização de ingredientes locais (com pegada ambiental reduzida ou nula), ou até de desperdício alimentar, na produção de alguns tipos de cervejas especiais, reforçando assim a ligação entre cervejeiros e comunidades locais.

No que respeita às embalagens, em 2025, os Cervejeiros de Portugal demonstraram ser pioneiros ao aprovar um código de autorregulação de embalagens retornáveis para cervejas e sidras, com o objetivo de aumentar a sua utilização em Portugal. Esta iniciativa constitui um exemplo de boas práticas sustentáveis, que conduzirá à poupança de matérias-primas e à redução das emissões de gases com efeito de estufa em toda a cadeia de valor da cerveja, da espiga ao copo.

As tendências para os próximos anos apontam para a evolução dos produtores de cerveja, sejam eles mainstream ou artesanais, posicionando-se no mercado com marcas que ostentam a rotulagem de “cervejas sustentáveis”. Esta estratégia insere-se numa lógica de transição ecológica e visa a conquista de consumidores cada vez mais conscientes da importância do cumprimento das metas ambientais.

Mais do que uma questão de consumo, a relação futura entre cerveja e sustentabilidade revelará em que medida as alterações climáticas irão afetar, em maior ou menor grau, a cultura da cevada, a própria economia e até o simples ato de beber uma cerveja. As alterações climáticas ameaçam a sua produção, mas também oferecem uma oportunidade única para transformar a indústria num exemplo de sustentabilidade. O futuro da cerveja dependerá da capacidade de unir tradição e inovação, garantindo que o brinde de amanhã seja não só saboroso, mas também responsável.

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