
Por Rui Lopes Ferreira, Presidente da APCV - Cervejeiros de Portugal
Janeiro chega todos os anos carregado de boas intenções: agendas limpas, promessas frescas e o já famoso em Portugal Dry January, um reset simbólico depois dos excessos do ano anterior. A intenção é legítima, mas, acima de tudo, esta nova “moda” que surge no país leva também à reflexão.
Um dos grandes problemas associados ao consumo de bebidas alcoólicas não é o consumo moderado e distribuído ao longo do tempo, mas sim o binge drinking: períodos de abstinência seguidos de consumos concentrados num curto espaço de tempo, muitas vezes associados a contextos de risco. Se todos os meses de janeiro perseguimos uma ideia quase ritualizada de pureza, importa garantir que não chegamos sedentos a dia 1 de fevereiro.
No meio deste debate, muitas vezes carregado de extremos, há um setor que, curiosamente, tem estado à frente da conversa há décadas: o setor cervejeiro – de uma forma geral – e a criação da cerveja sem álcool. A cerveja é hoje a bebida alcoólica mais consumida no mundo e a terceira bebida mais consumida a nível global, a seguir à água e ao chá. Estes números não resultam de um acaso nem de uma moda passageira.Resultam de muitos séculos de presença cultural, social e gastronómica, que fizeram da cerveja uma bebida milenar de convívio, partilha e proximidade.
A cerveja é também, por natureza, uma bebida de baixo teor alcoólico quando comparada com outras bebidas do seu universo. Também, por isso, o setor cervejeiro tem uma relação antiga e consistente com a ideia de moderação. Não a moderação episódica, concentrada num mês do calendário, mas a moderação como hábito, de 1 de janeiro a 31 de dezembro. Sem cinismos – sim, produzimos cerveja - mas também sem ilusões: a chave é a moderação.
É neste contexto que importa olhar para a inovação do setor cervejeiro com honestidade intelectual, pois fomos precursores da opção sem álcool - arriscaria no mundo, mas certamente na Europa. Em Portugal, as primeiras cervejas deste perfil surgiram no início e ao longo da década de 90, numa altura em que a tecnologia disponível ainda impunha limites claros ao sabor e à experiência, vendo esta bebida com olhos de copo meio vazio. Durante décadas, estas versões mantiveram pequenos vestígios de álcool (0,5%), sobretudo para preservar perfil organoléptico mas o salto verdadeiramente disruptivo acontece nos últimos 10 anos, com o desenvolvimento das cervejas 0.0%: sem álcool, sem concessões relevantes ao sabor e com uma evolução tecnológica notável.
Este não foi um movimento cosmético. Foi investimento sério em investigação e desenvolvimento, em processos produtivos mais sofisticados e em novas técnicas de desalcoolização. Importa também desmontar um mito recorrente: a ideia de que a cerveja 0.0% “não é cerveja”. É plenamente cerveja. A base e o processo são os mesmos: produz-se cerveja, com matérias-primas idênticas, predominância de cevada e contacto com a levedura. A diferença surge numa fase posterior, quando o álcool é totalmente removido. Este avanço distingue-se das primeiras gerações de cervejas sem álcool, em que a tecnologia disponível passava sobretudo pela interrupção da fermentação. O salto conceptual e tecnológico que permitiu chegar às gamas 0.0% foi decisivo, num compromisso claro com o consumidor.
O resultado está à vista: na Europa, a cerveja sem álcool é hoje a categoria com maior crescimento dentro do setor cervejeiro, tendo aumentado cerca de 25% nos últimos cinco anos e representando já cerca de 7,5% do total da cerveja consumida, o equivalente a uma em cada treze cervejas. Em Portugal, a cerveja sem álcool registou crescimentos, em 2024, superiores a 8% tanto na produção como no consumo. Este desempenho confirma que a cerveja sem álcool não é um gesto simbólico, nem uma resposta conjuntural a modas de calendário. É uma escolha crescente, integrada e consistente, que acompanha a evolução dos hábitos dos consumidores e reforça o papel do setor cervejeiro na promoção de padrões de consumo mais equilibrados e oferta mais diversa.
Como associação, temos acompanhado com atenção um fenómeno que já conhecíamos: ainda existe preconceito social em torno de quem pede uma bebida sem álcool. Uma ideia errada de que o convívio “funciona melhor” quando todos bebem o mesmo, ou quando todos bebem bebidas alcoólicas. A realidade mostra o contrário. Os momentos sociais são mais ricos quando são inclusivos, quando há pessoas do outro lado da mesa. Quando há escolha. Quando ninguém tem de justificar o copo que tem na mão.
O Dry January pode ser, assim, menos um mês de proibição e mais um mês de consciência. Talvez o verdadeiro avanço não esteja em beber menos ou mais, mas com responsabilidade. O ponto não é “secar” janeiro, é pautar todos os convívios com moderação, menos lógica de compensação, mais escolhas que não dependem de autocontrolo heroico para serem consistentes.
E, note-se: para o setor cervejeiro não há superstições nem dogmas de copo na mão. Um brinde erguido de uma bebida sem álcool nunca foi, nem nunca será, um mau presságio. Pelo contrário: é sinal de encontro e de partilha. Porque o que verdadeiramente conta não é o grau, mas o gesto.